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Trovadorismo (O Escriniano)

Trovadorismo (O Escriniano)
10 Ago
7:10

O nosso maior Patrimônio

Todas as línguas, independente do país, expressam sua cultura, sua história e tem dentro de si, a arte e as construções de pensamentos. A língua é um organismo vivo e está em constante processo de aperfeiçoamento. Passam-se os séculos e ela nos acompanha numa constante metamorfose. É a nossa maior herança, o nosso maior patrimônio. A linguagem permite-nos construir e organizar as ciências, a literatura, as religiões etc.


“… A linguagem tem variações regionais, sociais e de estilo. Mas a língua da cultura se sobreleva e possibilita a unidade nacional no idioma…”.

Evanildo Bechara (1928), gramático e membro da Academia Brasileira de Letras.


Falando de um bom português.

Na região do Lácio, na península itálica nasceu e desenvolveu Roma, uma das maiores potências do mundo antigo. Sua exímia organização militar permitiu que houvesse uma expansão do seu domínio até em locais longínquos. A Península Ibérica foi uma das regiões dominadas por Roma e essa romanização ocorreu no período da Segunda Guerra Púnica1. Essa região continha diferentes povos que, aos poucos, rederam-se ao poderio romano e deixaram suas línguas nativas e adotaram o latim. Houve poucas exceções, porque algumas línguas conseguiram sobreviver graças às condições geográficas. Alguns locais montanhosos e isolados garantiram a sobrevivência de códigos antigos. O basco foi um exemplo.

É importante dizer que o latim levado as outras terras não era o latim clássico (sermo litterarius), dos grandes escritores, filósofos, artistas e políticos influentes. Nossa herança gramatical e literária provem do latim vulgar (sermo vulgaris. Foram as tropas invasoras, os colonos e alguns funcionários públicos que nos trouxeram o latim vulgar que, por sua vez, mesclou-se com os dialetos, com as línguas das regiões dominadas e, por final, desenvolveram-se as línguas neolatinas2. Prova viva de que a língua está em constante mudança. O nosso português culto é oriundo do latim vulgar. A frase “Nós estávamos esperando” do português culto é oriundo do “A gente tava esperando” do latim vulgar. O latim foi perdendo sua influência conforme os romanos distanciavam-se do Lácio. O galego-português veio de um latim dissipado.

Estilo de Época ou Escola Literária | Trovadorismo em Portugal

 

Painel histórico da época:

  • O cristianismo ganha força e domina grande parte da Europa.
  • Teocentrismo: Deus é o centro do universo.
  • Monopólio clerical.
  • A língua portuguesa começa a ganhar estrutura gramatical e literária.
  • A invasão dos Mouros3 na Península Ibérica. Luta contra os mouros.
  • Cruzada rumo ao Oriente.
  • Feudalismo.

Em Portugal, o primeiro movimento literário em português arcaico ou galego-português chamava-se Trovadorismo, escola literária que teve início com a data provável de 1189 ou 1198 quando se criou a cantiga de amor “Canção da Ribeirinha” ou “Cantiga de Guarvaia”. Ela teria sido oferecida a Maria Pais Ribeiro. Esse período é da formação da nação portuguesa. A data oficial do encerramento desse movimento é do ano de 1434, o mesmo período em que Fernão Lopes é promovido para o cargo de Cronista-mor4 da Torre do Tombo.

O poeta tinha um comportamento de vassalagem com a mulher enamorada. Característica típica da época de uma sociedade feudal. Um nobre senhor doava pequenas propriedades de terra a outro e em troca prestaria serviços de vassalagem e fidelidade ao seu senhor. Nos poemas, os escritores colocavam-se na posição de submissão em relação à sua amada.

Cantigas

Líricas.

De amigo: mulher real, conversa com a natureza, mulher camponesa, o termo “amigo” quer dizer amado.

De amor: mulher idealizada, contemplação platônica, pronome de tratamento “meu senhor”, sofrimento por amor, comportamento de vassalo.

Satíricas.

De escárnio: indiretas, ironia, ambiguidade, não é revelada o nome da pessoa satirizada.

De maldizer: ofensa direta, maledicência. Uso de palavras obscenas e/ou eróticas, citação da pessoa satirizada.

Detalhes a mais das Cantigas:

O poema de Martim Codax

 

Cantiga de Amigo

Versão do livro S.O.S. Sistema Rápido de Pesquisa – Redação e Literatura da Editora Ática 1999.

Ondas do mar de Vigo,

Se vistes meu amigo!

E ai, Deus, se virá cedo!

***

Ondas do mar levado,

Se vistes meu amado!

E ai, Deus se virá cedo!

***

Se vistes meu amigo,

E por quem eu suspiro!

E, ai, Deus se virá cedo!

***

Se vistes meu amado

O por quem hei gran cuidado!

E ai, Deus, se virá cedo!

Versão da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Nova de Lisboa

Ondas do mar de Vigo,

Se vistes meu amigo?

E ai, Deus, se verrá cedo?

***

Ondas do mar levado,

Se vistes meu amado?

E ai, Deus se verrá cedo?

***

Se vistes meu amigo,

E por quem eu sospiro?

E, ai, Deus se verrá cedo?

***

Se vistes meu amado

O por quem hei gram cuidado?

E ai, Deus, se verrá cedo?

A cantiga de amigo é de tradição popular, de estrutura simplória e espontânea e o autor assume a fala da mulher enamorada.

O eu-poético é normalmente uma moça que aguarda o retorno de seu amado que partiu para combater os mouros. Surge a temática da solidão, da melancolia, da tristeza e da saudade.

Já na cantiga de amor, o poeta (o trovador) dirige-se à dama idolatrada que quase sempre era inalcançável, indiferente aos seus sentimentos.

Cantiga da Ribeirinha

No mundo nom me sei parelha,

mentre me for’ como me vay,

ca já moiro por vos — e ai ay!

mia senhor branca e vermelha,

queredes que vos retraya

quando vos eu vi en saya!

Mao dia me levantey,

que vos enton non vi fea!

E, mia senhor, des aquel di’ ay!

me foi a mi mui mal,

e vos, filha de dom Paai Moniz,

e bem vus semelha

d’haver eu por vos guarvaya,

pois eu, mia senhor, d’alfaya

nunca de vos ouve nem ey

valia d’ũa correa…

 

TAVEIRÓS, Paio Soares de. In Cancioneiro da Ajuda. Prefácio e notas do Professor Marques Braga. Lisboa, Sá da Costa, 1945. p. 80-1.

Vocabulário

  1. nom me sei parelha: não conheço quem se compare a mim / igual a mim..
  2. mentre: enquanto.
  3. ca: pois.
  4. moiro: morro (verbo morrer).
  5. senhor: senhora ou senhor. Senhora branca e vermelha: alva e de faces rosadas “rouge”.
  6. retraia: retrate, pinte, descreva.
  7. en saia: sem manto.
  8. que vos enton non vi fea: pois percebi que não éreis feia.
  9. des: desde.
  10. bem vus semelha: bem vos parece
  11. d’aver (d’haver) eu por vos: receber por seu intermédio.
  12. guarvaia: certa veste de luxo. Manto provavelmente vermelho usado pela nobreza
  13. alfaia: presente, brinde.
  14. valia d’ũa correa: qualquer coisa de pouco valor

Em algumas versões é usada a letra “i” no lugar do “y”. Quando se trata de tradução, é importante levar em consideração o contexto da época, costumes e crenças, influências políticas e religiosas.


 

Cantiga de Maldizer

Ai dona fea, fostes-vos queixar

que vos nunca louv’en[o] meu cantar (trobar);

mais ora quero fazer um cantar

en que vos loarei todavia;

e vedes como vos quero loar:

dona fea, velha e sandia!

Dona fea, se Deus mi perdon!

e pois havedes tan gran coraçon

que vos eu loe, en esta razon

vos quero já loar todavia;

e vedes qual será a loaçon:

dona fea, velha e sandia!

Dona fea, nunca vos eu loei

em meu trobar, pero muito trobei;

mais ora já um bon cantar farei

em que vos loarei via;

e direi-vos como vos loarei:

dona fea, velha e sandia!

Referências bibliográficas:

HOUAISS, Antônio. Escrevendo pela Nova Ortografia. Coordenação e assistência de José Carlos de Azeredo. Como usar as regras do novo acordo ortográfico da língua portuguesa. Instituto Antônio Houaiss de Lexicografia. 2. ed. Rio de Janeiro, Houaiss PubliFolha, 2008.

S.O.S. Sistema Rápido de Pesquisa – Redação e Literatura. São Paulo, Ática, 1997. p. 51-56.

HAMADANI, Gisele K. Kondi. Literatura Portuguesa e Literatura Brasileira. Santana de Parnaíba. 2010. Trabalho acadêmico (Graduação em Letras – Licenciatura em Português e Inglês), campus Alphaville, Universidade Paulista.

ANDRADE, Fernando Teixeira de. Português – Literatura Portuguesa. Livro 2: Linguagens, Códigos e suas Tecnologias. São Paulo, CERED – Centro de Recursos Educacionais. Coleção Objetivo Sistema de Métodos de Aprendizagem. 2009. p. 1-5.

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